sábado, 11 de junho de 2016

O tapa nosso de cada dia.

Ou: um tweet com mais de 140 caracteres.
Ou ainda: um post muito pessoal e pouco político para o Facebook.

Existe aquela brincadeira que roda no Facebook que te pede pra abrir o livro mais próximo e abrir a página 45, porque a primeira frase explica a sua vida amorosa. Eu amo esse tipo de joguinho, mas, como alguém que lê muito mais fantasia do que qualquer outra coisa, minhas brincadeiras sempre resultavam em pessoas lutando, amuletos mágicos ou dúvidas sobre qual feitiço usar, de modo que não existia nenhuma forma de metaforizar aquilo que eu lia e transformar numa piada ou numa lição de moral.

Ontem, vi uma menina cuja frase era "do not worry, Lizzy, I shall be able to forget him in a while", essa coisa linda de um momento horrível e 100% relatable de Orgulho e Preconceito, e decidi que não ia mais jogar esse jogo porque ele terminava ali, zerado por alguém que não era eu, e que o encerrara da maneira mais fantástica possível. Segui com a minha vida.

Hoje, dei de cara com a brincadeira de novo. Tinham três livros perto de mim, dois dos quais já participaram da brincadeira ("Medeia", de Sêneca, me deu "(Entram Medeia e Ama)"; "Medeias Latinas", um livro que reúne várias Medeias, me deu "Cheguei à terra de Eetes e prendi a amarra do navio na praia venturosa"). Peguei o terceiro, que aconteceu de ser "Gota D'água", do Chico Buarque e Paulo Pontes, e abri na página 45, já pensando que ia receber uma ação de palco ou um lamento de Joana. Em vez disso, leio o final de uma fala de Alma que se inicia na página 44, e que diz, num todo:

"Você não tem o direito de se esconder da felicidade, que ela não aparece todo dia, nem pra qualquer um." 

O universo, gente, ele é maravilhoso.

(E se não puder brincar assim, se a frase só puder começar na 45, digo que o que se segue é um belo de um "Vou cuidar de você, tá?", que é não só uma condição constante da minha vida sempre que eu gosto muito de alguém, como também uma das minhas frases favoritas no mundo.)